A maioria das pessoas vive física, intelectual ou moralmente, num círculo muito restrito do seu ser potencial. Elas fazem uso de uma parte muito pequena de sua consciência possível.


( William James)


quinta-feira, 28 de outubro de 2010

ESCUTE, ZÉ- NINGUÉM !

Fragmentos do livro de WILHELM REICH

Eles o chamam de Zé-Ninguém ou Homem Comum. Dizem que esta é a alvorada do seu tempo, a "Era do Homem Comum".
Não é você quem diz isso, zé-ninguém. São eles, os vice-presidentes de grandes nações, os lideres operários e os filhos arrependidos da burguesia, os estadistas e os filósofos. Eles lhe dão o futuro, mas não fazem perguntas Sobre o seu passado.

Um médico, um sapateiro, um mecânico ou um educador terá de conhecer suas deficiências se quiser realizar seu trabalho e com ele ganhar a vida. Já há algumas décadas você vem assumindo o controle, em todas as partes do mundo. O futuro da espécie humana dependerá dos seus pensamentos e atos. No entanto, seus mestres e senhores não lhe dizem como você realmente pensa e o que você realmente é, ninguém ousa confrontá-lo com a única verdade que poderia fazer de você o senhor inabalável do seu destino. Você é "livre" apenas sob um aspecto: livre da autocrítica que poderia ajudá-lo a governar sua própria vida.

Nunca o ouvi queixar-se: "Vocês me exaltam como futuro senhor de mim mesmo e do meu mundo. Mas não me dizem como um homem se torna senhor de si mesmo e não me dizem o que há de errado comigo, o que há de errado com o que penso e faço."
Você permite que os poderosos exijam poder "para o zé-ninguém". Mas você mesmo se cala. Você confere mais poder aos poderosos, ou escolhe homens fracos e maus para representá-lo. E descobre tarde demais que você é sempre enganado.

"Que direito você tem de me passares sermão?", é a pergunta que vejo nos seus olhos assustados. É a pergunta que ouço na sua língua insolente, zé-ninguém. Você tem medo de olhar para si mesmo, zé-ninguém, tem medo das criticas e tem medo do poder que lhe está prometido. Que uso irá fazer desse poder? Você não sabe. Tem medo de pensar que você mesmo - o homem que você sente que é - possa um dia ser diferente do que é agora: livre em vez de intimidado, sincero em vez de manipulador, capaz de amar, não como um ladrão no meio da noite, mas em plena luz do dia. Você se despreza, zé-ninguém. Você diz: "Quem sou eu para ter opinião própria, governar minha vida e achar que o mundo é meu?" Tem razão: quem é você para reivindicar sua própria vida? Vou lhe dizer quem você é.

Você difere de um grande homem sob apenas um aspecto: o grande homem foi um dia um zé-ninguém, mas desenvolveu uma única qualidade importante. Reconheceu a pequenez e a estreiteza dos seus atos e pensamentos. Sob a pressão de alguma tarefa à qual atribuía grande significado, aprendeu a ver como sua pequenez, sua insignificância, punha em risco sua felicidade. Em outras palavras, um grande homem sabe quando e de que forma ele é um zé-ninguém. Um zé-ninguém não sabe que é pequeno e tem medo de saber. Esconde sua insignificância e estreiteza por trás de ilusões de força e grandeza, da força e da grandeza de alguma outra pessoa. Sente orgulho dos seus grandes generais, mas não de si mesmo. Admira uma idéia que não teve, não uma idéia que teve. Quanto menos entender alguma coisa, mais firme é sua crença nela. E, quanto melhor entende uma idéia, menos acreditará nela.

SEU FEITOR É VOCÊ MESMO. Ninguém tem culpa da sua escravidão a não ser você mesmo. Ninguém mais, é o que lhe digo.
Isso é novidade para você, não é? Seus libertadores lhe dizem que seus opressores são Guilherme, Nicolau, o Papa Gregório XXVIII, Morgan, Krupp e Ford. E quem são esses seus libertadores? Mussolini, Napoleão, Hitler e Stálin.
Eu digo: Só você mesmo pode ser seu libertador!

Cercado por grandes zés-ninguéns, ele ganha poder para você, ou um pouco da verdade, ou ainda uma fé nova e melhor. Escreve seus ensinamentos, elabora leis para garantir a liberdade, contando com seu auxílio e firme disposição de ajudar. Ele o ergue do atoleiro social em que você se afundara. Para manter todos os grandes zés-ninguéns unidos e não deixar de fazer jus à confiança do povo, o
verdadeiro grande homem é forçado, pouco a pouco, a sacrificar a grandeza que alcançou em profunda solidão espiritual, longe de você e da sua agitação diária, embora em íntimo contato com a sua vida. Para liderá-lo, ele precisa permitir que você o idolatre como um deus inacessível. Você não teria confiança nele se ele continuasse a ser o homem simples que foi; se, por exemplo, vivesse com uma mulher fora do matrimônio.

Portanto, é você quem cria seu novo senhor.
Elevado à posição de novo senhor, o grande homem perde sua grandeza, que consistia em integridade, simplicidade, coragem e intimidade com as realidades da vida. Os grandes zés-ninguéns, que derivam seu prestígio do grande homem, assumem os altos postos nas finanças, na diplomacia, no governo, nas artes e nas ciências. E você continua onde sempre esteve, no atoleiro. Você continua a andar por ai em andrajos, em nome do "futuro socialista" ou do "Terceiro Reich". Você continua a viver em casebres de pau-a-pique rebocados com bosta de vaca. No entanto, sente orgulho do seu Palácio da Cultura do Povo. Você se satisfaz com a ilusão de que detém o poder... Até a próxima guerra e a queda dos novos senhores.

"Você é e sempre será um ser inferior, incapaz de ter responsabilidade. Você os chama de guias ou redentores e dá gritos de „hurra‟."
Tenho medo de você, zé-ninguém, muito medo, porque o futuro da humanidade depende de você. Tenho medo de você porque seu principal objetivo na vida é fugir - de si mesmo. Você está doente, zé-ninguém, muito doente. A culpa não é sua; mas é sua responsabilidade se curar. Você já se teria livrado dos seus opressores há muito tempo se não tivesse aprovado a opressão, e lhe dado tantas vezes apoio direto.

Nenhuma força policial no mundo teria tido o poder de esmagá-lo se você tivesse um mínimo de auto-respeito em sua vida cotidiana; se tivesse a consciência, a real consciência, de que sem você a vida não poderia prosseguir por uma hora sequer. Será que seu libertador lhe disse isso? Ele o chamou de "Trabalhadores do Mundo", mas não lhe disse que você e somente você é responsável pela sua vida (e não pela honra da pátria).

"Antes de confiar em você, quero saber quais são as suas convicções."
Quando eu lhe disser quais são as minhas convicções, você vai sair correndo à procura do promotor público, do Comitê contra Atividades Antiamericanas, do FBI, do GPU, do seu jornal de escândalos preferido, da Ku Klux Klan ou dos diversos líderes do proletariado mundial.
Não sou nem branco, nem preto, nem vermelho, nem amarelo.
Não sou nem cristão, nem judeu, nem muçulmano, nem mórmon. Não sou polígamo, nem homossexual, nem anarquista.

Faço amor com uma mulher porque a amo e a desejo, não porque tenho uma certidão de casamento ou por estar faminto de sexo.

Não espanco crianças. Não pesco nem caço, embora seja bom atirador e goste de praticar tiro ao alvo. Não jogo bridge e não dou festas para divulgar minhas idéias. Se minhas idéias forem válidas, elas próprias se divulgarão.
Não submeto meu trabalho à apreciação de qualquer autoridade médica, a menos que ela o compreenda melhor do que eu. E sou eu que decido quem entende minhas descobertas e quem não.
Respeito ao pé da letra todas as leis que fazem sentido, mas combato as que são obsoletas ou absurdas. Não vá correndo falar com o promotor público, zé-ninguém! Se ele é um homem honesto, age da mesma forma.

Quero que as crianças e os jovens apreciem o amor físico sem obstáculos.
Não acredito que, para ser religioso no melhor e autêntico sentido, um homem precise destruir sua vida amorosa e se mumificar de corpo e alma.
Sei que o que você chama de "Deus" realmente existe, mas não na forma que você pensa. Deus é energia cósmica primordial, o amor no seu corpo, sua integridade e sua percepção da natureza dentro e fora de você.

Tenho medo de você, zé-ninguém, muito medo. Nem sempre foi assim. Eu mesmo era um zé-ninguém, em meio a milhões de outros zés-ninguéns. Tornei-me, então, cientista e psiquiatra. Aprendi a ver como você está doente, e como é perigoso nessa sua doença. Aprendi a ver que é seu próprio distúrbio psíquico, não algum poder superior externo a você, que o mantém embaixo - todos os dias, a qualquer hora, mesmo na ausência de qualquer coerção externa. Você teria derrubado os tiranos há muito tempo se no seu íntimo estivesse vivo e em perfeita saúde.
No passado, seus opressores provinham das classes mais altas da sociedade; mas hoje eles provêm da sua própria camada. São ainda mais zés-ninguéns do que você, zé-ninguém.

Precisam ser mesmo muito pequenos para conhecer sua desgraça a partir da própria experiência e, com base nesse conhecimento, oprimi-lo com mais eficácia e mais crueldade do que nunca.
Você não sabe discernir, não sabe sentir quem é o homem verdadeiramente grande.
Você nem sempre é pequeno, zé-ninguém. Sei que tem seus "momentos de grandeza", suas "experiências de entusiasmo" e "exaltação". Falta-lhe, porém, a perseverança para deixar seu entusiasmo decolar, sua exaltação levá-lo a alturas cada vez maiores. Você tem medo de decolar, tem medo das alturas e das profundezas. Nietzsche há muito tempo lhe disse isso, muito melhor do que eu. Ele queria elevá-lo para que você se tornasse um super-homem, para que superasse o meramente humano.

Em vez do super-homem de Nietzsche você aceitou o Fúhrer, Hitler. E você continuou sendo o que era, o subumano.
Quero que você deixe de ser subumano e se torne "você mesmo". "Você mesmo" é o que estou dizendo. Não o jornal que você lê, não a opinião do seu vizinho perverso, mas "você mesmo". Eu sei, e você não sabe, o que você realmente é no fundo. Bem no fundo, você é o que um cervo, seu Deus, seu poeta ou seu filósofo são.

Você acha, porém, que é membro da associação dos veteranos de guerra, do seu clube de boliche ou da Ku Klux Klan. E, por pensar assim, você se comporta desse jeito. Isso também já lhe foi dito há muito tempo por Heinrich Mann na Alemanha, por Upton Sinclair e John dos Passos nos Estados Unidos. Você, entretanto, não reconheceu Mann nem Sinclair. Você só reconhece o campeão dos pesos pesados e Al Capone. Se lhe for dada a escolha entre uma biblioteca e uma luta, sem dúvida você irá à luta.

Você advoga a felicidade na vida, mas a segurança tem para você significado muito maior, mesmo que ela lhe custe dobrar a espinha ou arrase com sua vida inteira. Como nunca aprendeu a agarrar a felicidade, a apreciá-la e protegê-la, falta-lhe a coragem da integridade. Será que devo lhe dizer, zé-ninguém, que tipo de homem você é? Você ouve propagandas no rádio, anúncios de laxantes, cremes dentais, graxa para sapatos, desodorantes e assim por diante.
Não se dá conta, porém, da estupidez infinita, do abominável mau gosto dos cantos de sereia calculados para atrair sua atenção. Você algum dia chegou a prestar atenção às piadas de um comediante de boate a seu respeito? A respeito de você, dele mesmo e de todo o seu mundo desgraçado. Ouça bem seus comerciais de produtos para o melhor funcionamento dos intestinos e aprenda quem e o que você é.

Escute, zé-ninguém! Cada uma das suas iniqüidades mesquinhas lança uma luz sobre a desgraça da vida humana. Cada um dos seus atos mesquinhos diminui a esperança de que se possa melhorar seu quinhão, mesmo que só um pouco. Isso é motivo para tristeza, zé-ninguém, para tristeza profunda e dolorosa. E para evitar essa tristeza que você faz piadinhas tolas. Isso é o que você chama de seu senso de humor.

Você ouve uma piada sobre si mesmo e se junta ao riso. Não ri por apreciar o humor às suas custas. Ri do zé-ninguém sem suspeitar que está rindo de si mesmo, que a piada é sobre você. E todos os milhões de zés-ninguéns não percebem que a piada é sobre eles. Por que riram de você com tanto entusiasmo, tanta franqueza, tanta crueldade pelos séculos afora? Já percebeu como fazem as pessoas comuns parecerem ridículas nos filmes?

Vou lhe dizer por que riem de você, zé-ninguém, pois eu o levo a sério, muito a serio.
Foram necessários muitos milhões de anos para você evoluir de medusa a bípede terrestre. Você vem vivendo em rigidez corporal, sua aberração atual, há apenas seis mil anos. E vai demorar cem, quinhentos ou cinco mil anos para que você redescubra a natureza dentro de você, a medusa em você.

Não é verdade, zé-ninguém, que você persegue "mães solteiras" por serem imorais? Não é verdade que você traça uma distinção nítida entre filhos "legítimos" e "ilegítimos"? Que lastimável criatura você é, correndo a esmo neste vale de lágrimas! Você não conhece o significado das suas próprias palavras.

Você cultua o Menino Jesus. O Menino Jesus nasceu de uma mãe sem certidão de casamento. O que você cultua no Menino Jesus, pobre zé-ninguém dominado pelo casamento, é seu próprio anseio pela liberdade sexual! Você exaltou o Menino Jesus "ilegítimo", tornou-o filho de Deus, que não considerava nenhuma criança ilegítima. Mas então, cruel e mesquinho como é, você começou, na pessoa do apóstolo Paulo, a perseguir os filhos do verdadeiro amor e a dar aos filhos do verdadeiro ódio a proteção das suas leis religiosas. Você é vil, zé-ninguém.

Você dirige seu automóvel, atravessando pontes concebidas pelo grande Galileu. Você sabe, zé-ninguém de todos os países, que o grande Galileu gerou três filhos fora do casamento? Isso você não conta aos seus alunos. E não foi essa uma das razões para a perseguição a Galileu?
E você sabe, zé-ninguém da pátria de todos os povos eslavos, que o grande Lênin, pai de todos os trabalhadores do mundo (ou de todos os eslavos?), ao chegar ao poder, aboliu o casamento compulsório? Você sabe que ele próprio viveu com uma mulher sem oficializar o casamento‟? Disso, você fez segredo. não é, zé-ninguém? E depois, através do seu grande líder de todos os eslavos, você restabeleceu as antigas leis do casamento por ser incapaz de incorporar à sua vida o grande feito de Lenin
Ou talvez, zé-ninguém, você seja um marxista, um "revolucionário profissional", futuro líder dos trabalhadores do mundo, futuro pai de alguma pátria soviética.

Você quer livrar o mundo dos sofrimentos. As massas enganadas fogem de você, e você corre atrás delas, aos gritos. "Parem! Parem, massas trabalhadoras! Não estão vendo que eu sou seu libertador? Por que não o admitem? Abaixo o capitalismo!" Eu instilo vida nas suas massas, revolucionário-ninguém. Eu lhes mostro a desgraça de suas vidinhas. Elas me ouvem, ficam radiantes de entusiasmo e esperança e correm para suas organizações porque esperam me encontrar ali. E o que é que você faz?

"O sexo é uma aberração pequeno-burguesa", diz você. "Tudo depende de fatores econômicos." E lê o livro de Van de Velde sobre técnicas amorosas.
E você, zé-ninguém, o que fez com a riqueza intelectual do grande homem? Ele lhe deu idéias elevadas, de longo alcance, mas você guardou apenas uma palavra retumbante: ditadura! De toda a superabundância de um grande e caloroso coração... restou apenas uma palavra: ditadura! Você jogou fora tudo o mais: liberdade, respeito pela verdade, libertação da escravidão econômica, pensamento construtivo, metódico. Só uma palavra infeliz, embora bem-intencionada, permaneceu em você: ditadura!

A partir desse pequeno equívoco por parte de um sábio, você criou um enorme sistema de mentiras, perseguições, torturas, prisões, carrascos polícia secreta, informantes, delatores, uniformes, marechais e medalhas. Todo o resto você jogou fora. Agora está começando a compreender como você é, zé-ninguém? Ainda não? Pois bem, vamos tentar mais uma vez. Você confundiu as "condições econômicas" do seu bem-estar na vida e no amor com a "maquina"; a emancipação do homem com a "grandeza do Estado"; a disposição a fazer sacrifícios por grandes objetivos com a estupidez e teimosia da "disciplina partidária"; o despertar de milhões com a exibição de poderio bélico; amor livre com o estupro indiscriminado quando veio à Alemanha; a abolição da pobreza com o extermínio dos pobres, fracos e indefesos; cuidado às crianças com a "criação de patriotas"; planejamento familiar com medalhas para as "mães de dez filhos". Você mesmo não foi vítima dessa sua idéia da "mãe de dez filhos"?


Você acha que os fins justificam os meios, por mais abjetos que sejam. Eu lhe digo: O fim é o meio pelo qual você o atinge. O passo de hoje é a vida de amanhã. Fins grandiosos não podem ser alcançados por meios torpes. Isso você provou em todos os seus levantes sociais. A mesquinhez e a desumanidade dos meios fazem com que você seja mesquinho e desumano, e tornam os fins inatingíveis.
Ouço-o perguntar: "Como então vou atingir meu fim, seja ele o amor cristão, o socialismo, seja a democracia norte-americana?" Seu amor cristão, seu socialismo e sua democracia norte-americana são o que você faz a cada dia, em cada momento, seu modo de pensar, de abraçar sua companheira de vida e amar seu filho; eles são sua atitude de responsabilidade social para com seu trabalho e sua determinação de não se tornar como os opressores da vida que você tanto odeia.

Você confundiu o direito à liberdade de expressão e de crítica com o direito de cometer indiscrições e fazer piadas idiotas. Você quer criticar mas não ser criticado e, em conseqüência dessa atitude, acaba sendo dilacerado e morto. Quer atacar sem se expor ao ataque. É por isso que sempre atira de tocaia.
"Polícia! Polícia! O passaporte desse homem está em ordem? Ele é médico mesmo? Seu nome não está no Quem é quem e a Associação Médica está contra ele."
A polícia não vai levá-lo a lugar nenhum, zé-ninguém. Ela pode prender ladrões e regulamentar o tráfego, mas não tem como conquistar a liberdade para você, nem como preservá-la. Você mesmo destruiu sua liberdade e continua a destruí-la com uma coerência deplorável.
Você não é o "povo", zé-ninguém. Você é quem menospreza o povo, pois você trabalha não pelos direitos dele, mas pela sua própria carreira.

Isso também já lhe foi dito por uma infinidade de homens generosos. Só que você nunca os leu, zé-ninguém, disso tenho certeza. Mostro respeito pelo povo ao incorrer em sério perigo para dizer a verdade a ele. Poderia muito bem jogar bridge com você e fazer piadinhas idiotas. Mas não me disponho a sentar à mesma mesa que você. Você é um péssimo defensor da Declaração da Independência.
Você não é nada, zé-ninguém! Nada de nada! Você não construiu esta civilização, ela foi construída por alguns dos seus senhores mais decentes. Mesmo que você seja construtor, você não sabe o que está construindo. Se eu ou alguma outra pessoa dissesse: "Assuma responsabilidade pelo que está construindo", você me chamaria de traidor do proletariado e correria em rebanho até o Pai de todos os proletários, que não diz esse tipo de coisa.
Você não é livre, zé-ninguém, e não faz a menor idéia do que seja a liberdade. Não saberia viver em liberdade. Quem levou a peste ao poder na Europa? Você, zé-ninguém! E nos Estados Unidos?


Eu sei, eu sei, mulher-ninguém. Todas as aparências lhe são favoráveis; você estava lutando pelo seu pais e assim por diante. Isso eu ouvi há muito tempo na Áustria. Você alguma vez ouviu um motorista de aluguel em Viena aos gritos de "Longa vida ao meu Imperador!"? Não? Não faz diferença. Basta que preste atenção a você mesma. A toada é a mesma. Não, mulher-ninguém, não tenho medo de você. Você não pode fazer nada contra mim. Sei que seu genro é promotor público ou que seu sobrinho é coletor de impostos na minha cidade. Você o convida para tomar chá e solta uma palavra indignada a meu respeito. Ele está ansioso por uma promoção e à procura de uma vitima, alguém que possa sacrificar à lei e à ordem. Sei como isso se faz. Mas isso não a salvará, mulher-ninguém. Minha verdade é mais forte do que você.


Mesmo assim, não desanimei, porque nesse meio tempo eu havia adquirido uma compreensão melhor e mais profunda da sua doença, eu sabia que você não poderia ter pensado ou agido de modo diferente. Reconheci seu medo pânico diante de tudo o que é vivo em você. É esse medo que sempre o desvia do caminho, mesmo quando começou bem. Você simplesmente não consegue perceber que a esperança precisa nascer da sua própria compreensão. Para você a esperança vem de fora para dentro, mas nunca brota a partir de você mesmo. E por isso, zé-ninguém, que você, considerando a total podridão do seu próprio mundo, me chama de "otimista". Sim, eu sou otimista, cheio de perspectivas para o futuro. Como isso é possível? Vou lhe dizer.

A força vital no homem foi maltratada por muito tempo, mas só recentemente ela começou a revidar. Este é um grande começo para seu grande futuro, e promete um fim terrível para todos os tipos de pequenez nos zés-ninguéns!
Cale-se! Você está se escondendo por trás do mito do zé-ninguém porque tem medo de entrar na correnteza da vida e de precisar nadar, mesmo que seja só por seus filhos e netos.
O que você chama, de "opinião pública", zé-ninguém é o conjunto das opiniões de todos os zés-ninguéns, homens e mulheres. Cada homem e cada mulher zé-ninguém tem no seu íntimo uma opinião própria correta e um tipo especial de opinião incorreta. Suas opiniões incorretas derivam do medo das opiniões incorretas de todos os outros zés-ninguéns e mulheres-ninguéns. É por isso que as opiniões corretas não vêm à luz. Por exemplo, você não vai mais acreditar que você "não tem nenhuma importância". Você irá saber e proclamar que é o esteio e o alicerce desta sociedade humana. Não fuja! Não tenha medo! Não é tão mau assim ser um esteio responsável da sociedade humana.

"O que eu devo fazer então para ser o esteio da sociedade?"
Nada de novo ou de incomum. Apenas continue fazendo o que já está fazendo: lavre seu campo, use seu martelo, examine seu paciente, leve seus filhos para brincar ou para a escola, escreva artigos sobre os acontecimentos do dia, investigue os segredos da natureza. Você já está fazendo tudo isso, mas acha que são atividades sem importância e que só as palavras ou os atos do Marechal Medalha-no-Peito ou do Príncipe Conversa-Fiada são importantes.

"Você é um sonhador, doutor. Não percebe que o Marechal Medalha-no-Peito e o Príncipe Conversa-Fiada dispõem dos soldados e das armas necessárias para fazer a guerra, para me convocar para a guerra deles e para fazer explodir em pedaços meu campo, minha fábrica, meu laboratório ou meu escritório?
Faça o que seu coração mandar, ainda que ele o leve a caminhos que almas tímidas evitariam. Mesmo quando a vida for um tormento, não permita que ela o torne insensível.
Descortinei para você o vasto reino da energia viva dentro de você, sua essência cósmica. Essa é minha grande recompensa.

E para os ditadores e tiranos, os astuciosos e malévolos, os abutres e hienas, protesto com as palavras de um antigo sábio:

Plantei neste mundo o estandarte de palavras sagradas.
Muito depois de estar murcha a palmeira
e de se ter esfarelado a rocha;
muito depois de monarcas deslumbrantes
terem desaparecido como o pó de folhas secas,
mil arcas levarão minha palavra
pelos dilúvios afora:
Ela prevalecerá.

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