A maioria das pessoas vive física, intelectual ou moralmente, num círculo muito restrito do seu ser potencial. Elas fazem uso de uma parte muito pequena de sua consciência possível.


( William James)


quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O FRÁGIL E INSUFICIENTE MODO LINEAR DE PENSAR: A NECESSIDADE DO PENSAMENTO COMPLEXO

As pessoas adquiriram hábitos de pensamento, um sistema de referência e valores dos quais se tornaram prisioneiras. – (Simone de Beauvoir)


Os grandes colapsos e as catástrofes mundiais que começam acirrar, sobretudo, a partir do século XX, para citar algumas: as duas grandes guerras mundiais, as crises econômicas, as disputas territoriais, os governos totalitaristas, a bomba atômica, a degradação intensa da vida animal e do meio ambiente, entre inúmeras outras barbáries, têm colocado um ponto de interrogação sobre qual o rumo do planeta e de nossas vidas.
Muitas vezes esse questionamento se faz através de um cínico "não estarei aqui mesmo quando tudo isso explodir" ou um intenso sentimento de vazio e perda de identidade: em última instância, tem levado ao niilismo em seu último grau, tal como preconizado por Nietzsche no século XIX.

As barbáries não são novidades, sempre existiram, basta passar os olhos pela história. O que chama atenção é que os grandes progressos que chegaram até o momento atual não tem dado conta de possibilitar uma vida melhor para uma ampla maioria de pessoas, e o pior, tem trazido danos irreparáveis à vida e ao planeta. E dificilmente poderíamos dizer que os colapsos do nosso tempo são mais amenos que o sangue já derramado durante as civilizações na Idade Antiga e Idade Média.

A escola de Frankfurt, sobretudo através de Adorno, Habermas e Horkheimer, com aguçados olhares críticos, nos mostra muito bem que a razão do homem não tem servido para melhorar a vida, pelo contrário, tem levado à degradação da vida em suas múltiplas faces; levando a civilização do progresso e da técnica, com sua razão instrumental, voltada principalmente para o lucro, à barbárie.

Certamente que muitos não têm consciência das considerações teóricas que estão por trás dos seus modos de compreensão da "realidade" – o método pelo qual pensam -, mas o pensamento está muito bem cristalizado por um método de pensar que vingou desde Sócrates: o pensamento linear-causal; que na modernidade se encorpa através do método lógico-formal e vai perpassar todas as áreas da ciência, produzindo, "logicamente", conhecimentos unilaterais e reducionistas.
Esse modo de pensar ou admite "isso" ou "aquilo"; ou é capitalismo ou é socialismo; ou é verdade ou é mentira; ou é certo ou é errado;

ou é bonito ou é feito; ou é razão ou é emoção; ou é corpo ou é mente… é a lógica do "ou/ou" que não compreende que corpo e mente são indivisíveis, que o certo pode ser errado e vice-versa. Os exemplos são inúmeros e estão nos itinerários ordinários do dia-a-dia além de se apresentar também no palco científico que só recentemente vai começar a questionar-se.
O conhecimento científico possibilitou o avanço da técnica, e muitos ainda acham que o progresso é uma linha contínua que está sempre em evolução.

Porém, todo esse "progresso" se mostra incapaz de resolver problemas como a violência, a exclusão e a miséria. Tal progresso possibilitou a produção de alimentos que seria capaz de alimentar todos os seres humanos, mas tampouco isso é uma realidade, pois muitos morrem de fome e desnutrição a cada hora.
Para a nossa cultura atual, é favorável aquele conhecimento que produz resultados materiais, em outras palavras, quanto mais lucrativo for o conhecimento ele é etiquetado como sendo o melhor, e em nome do capital o pensar não produz questionamentos pois ele já vem embalado e entrega o pensado. Trata-se de uma visão ingênua e unilateral da vida, pautada na divisão entre subjetividade e objetividade; conhecimentos humanos – que cada vez mais as pessoas desprezam – e conhecimentos exatos ou técnicos, colocados cada vez mais nas vitrines da educação mercadológica.


Um modo de pensar mais abrangente, que dê conta mais consistentemente das múltiplas forças e fenômenos que estão presentes num dado momento em um dado fenômeno, urge como uma necessidade fundamental para tentarmos fazer com que o progresso, a técnica, e o desenvolvimento racional, sejam favoráveis à Vida em sua totalidade; contudo, sem incorrer em totalitarismos, deslumbres ingênuos, messianismos, fanatismos, tribalismos, fundamentalismos ou utopismos.
A questão não é quem está certo e quem está errado, não é um jogo de nós contra eles. O certo e o errado só as conseqüências nos dirá, a história nos dirá. E parece que ela tem nos dito até agora que estamos errados.

No entanto, a questão não é etiquetar as nossas ações como ou isso ou aquilo, é necessário saber que todos nós podemos estar certos e errados ao mesmo tempo. É necessário abrir mão do pesado fardo de valor que os homens têm usado, muitas vezes em nome dos seus fundamentalismos, para fixar essências imutáveis nas coisas.
Quem ainda duvidar de que precisamos urgentemente de começar a pensar sobre o nosso próprio pensamento, sobre a forma como olhamos e entendemos o mundo, duvidar da nossa própria capacidade de conhecimento, basta olhar a história recente e ver um filme do horror que jorra sangue e faz vidas voarem pelos ares; crueldades e barbáries cometidas em nome disso ou daquilo: em nome do patriotismo; em nome da ciência; em nome de Deus; em nome da honra; em nome do Bem; em nome do comunismo; em nome do capitalismo, etc.


O pensamento complexo não se vê como dono da verdade, ele não etiqueta o mundo em verdades e mentiras, pois todo conhecimento é parcial e a realidade em sua totalidade é inatingível; e se compreendo dado fenômeno é uma compreensão que se sabe mutável no tempo e no espaço, pois nenhum fenômeno permanece imutável: se olho para a economia hoje compreendo muitos aspectos, mas se olho tempos depois o conhecimento anterior poderá valer somente em alguns pontos, ou poderá ser totalmente descartável; diz-se que a economia está e não é "assim". O complexo como norte do pensamento compreende que nós somos a nossa única salvação, e para tal, é necessário (re)pensar a nossa forma de pensar e de lançar olhares sobre o mundo.


Pensamento linear

Pensamento linear ou linear-cartesiano é sem dúvidas o mais predominante modo do homem pensar, tem suas raízes em Aristóteles e é "sacralizado" com Descartes na modernidade. Sustentado pela lógica binária, esse tipo de pensamento identifica os opostos de um dado fenômeno e a partir deles desenvolve correlações que irão sustentar a formulação de um dado conhecimento.

Olhando para um dado fenômeno a partir dessa lógica, o objeto de estudo é dividido em várias partes, em seguida é feito uma análise de cada parte em separado. Formula-se várias categorias, grupos e subgrupos para classificação e especializações de cada parte. Fica evidente o quanto é fragmentador e reducionista esse tipo de lógica de pensamento.


Nesse sentido, o objeto de estudo "desaparece" em partes que obstruem a visão do "todo". Separando o objeto cada vez mais em partes menores para análise, perdem-se as relações do fenômeno com os vários contextos. Reduz-se o fenômeno a meros conceitos "cristalizantes" como se eles por si só se esclarecessem. Essas construções teóricas, embora possam mudar ao longo do tempo, enquanto não se "descobrem" outras relações, são tidas como universais e válidas em qualquer tempo e espaço.

A medicina, por exemplo, dissecou o corpo humano em sistemas, órgãos, células, genes… e criou um campo de conhecimento altamente classificatório; o olhar do médico tradicional é abordar os sintomas relatados pelo paciente e a partir daí buscar relação com o corpo teórico conceitual já bem aceito pela comunidade médica. Em geral, reduz o indivíduo a um conceito: ele tem câncer! Assim, com uma visão mutilada, o tratamento busca atingir somente as "partes" que estão prejudicadas, desconhecendo a relação da doença com o corpo como um todo: espírito e corpo – divisão, aqui, utilizada apenas para efeito didático. Certamente que isso tem seus benefícios, porém, ressalta-se aqui, o desaparecimento do homem como um ser concreto imerso em um plano simbólico que exerce impacto em todas as suas manifestações.

Evidente que isso não se verifica apenas na medicina, mas sustenta todo campo científico e boa parte da filosofia. Felizmente, dentro de cada campo, começam a se questionar esses pontos de vista já arraigados, de tal forma que o pensamento complexo encontra ai suas brechas para tentar jogar mais luz nos reducionismos científicos – contudo, este não tem a pretensão de ser verdade absoluta, o que seria um contrasenso devido as seus princípios, entre eles o da incerteza que será melhor abordado em momento oportuno.

Pensamento sistêmico


Esse tipo de pensamento é mais recente, surgiu no século XX em contraposição ao reducionismo do pensamento linear, mais precisamente a partir de 1920, na área da biologia com Goldstein e a noção do organismo compreendido como um sistema. Entre os seus vários expoentes, destaque para Fritjof Capra, físico austríaco, contemporâneo, que sistematizou os princípios do pensamento sistêmico em suas obras, entre elas, a principal, denominada "A teia da vida – uma nova compreensão científica dos sistemas vivos" (1996).

O pensamento sistêmico interliga as partes, diminui a distância entre elas e permite pensar o conjunto (sistema) sem perder de vista todos os seus componentes. Admite-se nesse modelo, que na articulação entre as partes, podem surgir novas propriedades (idéias novas), o que seria impossível de visualizar a partir do pensamento linear.
Nesse modelo, busca-se analisar as partes separadamente mas sem perder de vista a sua relação com o todo, além, de conceber que o todo compreende relações que não estão nas partes, e vice-versa. Simplificando: a análise das partes em separado revela um conhecimento; a análise das partes em relação com o todo revela um conhecimento com propriedades novas, e por fim, a compreensão do todo também revela um conhecimento com propriedades novas.

Sistemicamente, o pensamento visa o ordenamento das relações a partir do modelo mecanizante bem característico do pensamento linear. Admitem-se no pensamento sistêmico, novas propriedades que surgem com a totalidade, dentro de uma compreensão que busca dar uma ordenação sistemática entre as variáveis que são aprendidas em um dado fenômeno.
Enquanto o pensamento linear é estrutural, o pensamento sistêmico é não-linear e se baseia no estudo dos padrões, conjuntos e totalidades. Embora inovador em relação à lógica binária, o pensamento sistêmico também incorreu nos seus reducionismos, entre eles, a idéia ilusória de que podemos controlar uma infinidade de variáveis, que os controles e modelagens que exercemos em determinados contextos podem ser automaticamente estendidos para sistemas maiores e mais complexos.

O pensamento sistêmico, com seu grande potencial, infelizmente, transformou-se em mais um modelo reducionista. Criou a ilusão de que o pensar nesses moldes daria conta de captar a totalidade sem perder de vista a ligação entre as partes, e que a partir daí poderia se ter o "poder sobrenatural" de ter um controle absoluto das coisas. Não precisa discorrer muito para dizer o quanto a idéia do homem de exercer controle sobre as coisas, ter previsibilidade e ordenação, de maneira "prepotente", desconsiderando o incognoscível e a casualidade, tem contribuído para grandes catástrofes na História: o "comunismo" soviético (que não é aquele proposto por Marx) é um exemplo que pode ser visto com um início e fim; o capitalismo também, porém ainda está a nos apresentar seus colapsos: a crise financeira recente que estamos vivendo, que teve seu auge no rombo dos valores imobiliários americanos, é só mais um exemplo do fracasso da crença do homem na previsibilidade das coisas.
O pensamento complexo não nega, como dito no início, os modelos de pensamentos linear e sistêmico. Ele dá um passo além: inclui a aleatoriedade, a incerteza, a imprevisibilidade e impossibilidade de separação entre sujeito e objeto. Homem, máquina e ambiente estão intrinsecamente interligados.

Admite-se a importância desses dois modelos de pensamento. O homem precisa reduzir o objeto a várias variáveis, concebê-las analiticamente e criticamente, também precisa uni-las e buscar a compreensão da totalidade e das relações entre as partes com o todo e do todo com as partes. É altamente importante que consigamos trabalhar com previsibilidade, ordenação e classificação do mundo, é uma questão até mesmo de sobrevivência. Mas não somente: é necessário abandonar a ilusão de que podemos ter controle e previsibilidade absolutos sobre o mundo;
É necessário desautorizar o nosso conhecimento como imponente e tomar consciência que a razão não é uma "lei divina" que irá nos dar todas as soluções – contudo, isso não significa ser irresponsável e se jogar ao acaso, mas clarificar, jogar luz com toda amplitude possível, sabendo que não somos o centro do universo, que podemos falhar e que a razão também desconhece, o que deveria aumentar ainda mais a nossa busca por uma conhecimento complexo e não simplificador.

Com a ilusão do controle o homem tem negado a si mesmo, na medida em que se afasta, coloca-se fora do mundo, como se fosse algo indiferente aos fenômenos. Assim, ele busca pintar o mundo com as cores da causalidade, da linearidade, da ordem e de um "explicacionismo" em termos quantificáveis e classificáveis cada vez mais redutivos e simplificados. Ele crê, dessa maneira, não participar, não interagir com os fenômenos, nessa fuga ele não se vê como responsável pelos colapsos e catástrofes que ocorrem.

Fonte: http://www.eternoretorno.com

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