segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Projeto Brainwave




Erin Valenti, 33, CEO fundadora de uma startup tecnológica de aplicativos corporativos de Salt Lake City, foi até o Vale do Silício a negócios. Para desaparecer e, uma semana depois, ser encontrada morta no banco de trás de um carro alugado em um tranquilo bairro de classe média de San José. Tudo se limitaria a mais uma notícia de páginas policiais, se antes ela não tivesse ligado para seus pais, em pânico, paranoica e dizendo coisas desconexas como “vivemos na Matrix”, “tudo é um jogo mental” e “neurociência é controle da mente”. Estranhamente a polícia ignorou o aviso de desaparecimento e até hoje não deu qualquer informação sobre a causa da morte. A família procura respostas desde o ano passado. Muitos engenheiros e cientistas do Vale do Silício estão obcecados com a hipótese da simulação, o argumento de que aquilo que experimentamos como realidade é de fato fabricado num computador. Mas o que incendiou mesmo a imaginação conspiratória foi a descoberta das ligações de Erin Valenti com o Projeto Brainwave - criação de interfaces não invasivas entre as ondas cerebrais e computadores. Será que Erin tentava expor algo desconhecido? Ou foi mais um caso de “burnout” de uma CEO no competitivo mundo das startups tecnológicas?

Era sete de outubro de 2019, o aniversário de casamento de Agnes e Joseph Valenti. Enquanto Agnes cortava a couve-flor assada em seu prato, Joseph conversava ao telefone com a filha do casal, Erin Valenti, 33 anos, a mais de quatro mil quilômetros de distância, em Palo Alto, Califórnia. Ela acabara de deixar uma amiga e se queixava de não estar encontrando um carro para alugar.
Após o jantar, o casal Valenti ligou novamente para a filha, empreendedora e CEO de uma empresa de desenvolvimento de aplicativos Tinker Ventures, de Utah – ela estava na Califórnia a negócios e também para rever amigos. Finalmente conseguiu um carro: um Nissan Murano cinza e começou uma curta viagem até o aeroporto internacional de San José para pegar um voo de retorno a Utah.
De repente, Erin começou a falar cada vez mais rápido e de forma desconexa, “a uma milha por minuto”, como afirmaria a mãe. Não parava mais de falar. Até à meia-noite, a mãe e o marido de Erin, o psicólogo Harrison Wienstein, se revezaram no telefone.
Erin falava ideias desconexas como “controle da mente é igual a neurocontrole”... “Estamos todos na Matrix”... “É tudo um jogo, um experimento mental”... “Você está nisso?”.



Jamais Erin Valenti pegaria o voo da Delta para Salt Lake City. Ela desapareceria, para ser encontrada cinco dias depois morta, no banco de trás do Nissan alugado, em uma pacata rua residencial de classe média alta em San José a minutos do aeroporto.
Ela foi encontrada sem danos físicos aparentes. Esse foi o início de um mistério de como uma empreendedora de startups da área de tecnologia desapareceu e morreu no Vale do Silício, deixando família, amigos e um grupo de empresários do crescente centro de tecnologia de Utah em busca de respostas.



A explicação mais fácil seria suicídio, levando-se em conta os inúmeros casos de batalhas silenciosas contra a depressão de fundadores de startups tecnológicas pelo estresse de criar uma empresa e manter seus clientes – é conhecido o problema de saúde mental no centro tecnológico de Utah, onde o suicídio é a principal causa de morte entre pessoas de 15 a 34 anos.
Mas a família não acredita nisso: Erin Valenti era expansiva (e não do tipo que reprime sentimentos – seu apelido era “Armagedom Erin”), sem histórico de drogas ou problemas mentais, além de estar no auge da carreira quando foi à Califórnia em busca de inspiração para um próximo passo: criar um fundo de risco e aceleradora de startups que investisse em empresas lideradas por mulheres, além de apoiar projetos de artistas e cineastas.
Erin tornou-se o pivô do desenvolvimento do centro tecnológico da região de Salt Lake City – criou uma comunidade reunindo empresas e a comunidade em salas de reuniões, Workshops e bares, desde que chegou em 2012.
Aceitou um emprego como chefe de produto na Overstock.com (empresa varejista de Internet), conseguindo que a empresa apoiasse um evento de tecnologia para 4.000 participantes. Para dali criar sua própria empresa, a desenvolvedora de aplicativos corporativo Tinker Adventures, formada por engenheiro americanos e paquistaneses, que trabalhavam remotamente.


As anomalias em torno do desaparecimento e morte de Erin começaram com o comportamento da polícia de San José: primeiro, depois da família informar o desaparecimento a polícia alegou que Erin “era adulta” e que o caso seria tratado como “desaparecimento voluntário” – ela poderia ter sumido propositalmente sem contar nada a ninguém. 
Inconformado e alegando que a investigação policial era na verdade uma farsa, o marido criou uma página no Facebook pedindo informações de pessoas na área da Baia de San Francisco e Vale do Silício – um amigo aficionado por drones se ofereceu para sobrevoar as áreas nas quais o celular de Erin fora rastreado. Até encontrar o carro em uma tranquila rua de San José.
O porta-voz da polícia local não quis dizer mais nada sobra a história e a causa da morte ainda continua desconhecida – segundo informado, as análises de médicos legistas “podem levar meses”.
Outra anomalia foi o carro ter passado despercebido, talvez por dias. Moradores do bairro chamado Almaden, onde Erin foi encontrada, ficaram perplexos de não terem notado o carro que poderia ter ficado ali por dias: “É realmente estranho, bizarro, nebuloso para mim. Porque esse tipo de coisa geralmente não acontece em Almaden ”, disse Ralph Elongo, 56 anos, que mora na esquina de onde o carro foi encontrado. “O que mais parece estranho é que nenhum de nós notou. E nós somos um bairro onde as pessoas estão bem próximas”
Mas outras informações paralelas surgiriam, transformando esse caso num prato cheio de, por assim dizer, “teorias conspiratórias”.

Projeto Brainwave

Em agosto do ano passado o CEO da Overstock.com, Patrick Byrne, 57, um dos primeiros investidores no comércio pela Internet, renunciou ao cargo. Em entrevista à CNN (clique aqui) criticou o FBI alegando que havia sido orientado para ter um relacionamento íntimo com a espiã russa Maria Butina, referindo-se ao “Deep State”, “homens de preto” e “espionagem política contra Hillary Clinton e Trump”. Recentemente foi defensor da Bitcoin e Blcokchain, fazendo as ações da empresa subirem acentuadamente entre 2017 e 2018.

Porém, o que incendiou a imaginação conspiratória foram as conexões de Erin Valenti com Thomas Reardon e o Projeto Brainwave do seu laboratório CTRL, centro de neurociência e comportamento, da criação de interfaces não invasivas entre as ondas cerebrais e computadores:
O futuro das interfaces cérebro-máquina não é invasivo. Em vez de implantes cirúrgicos, os laboratórios CTRL usam detecção de ponta e aprendizado de máquina para ler seus neurônios de fora do corpo. O primeiro passo será a tecnologia captar precisamente os sinais de dentro do seu corpo para controlar os dispositivos externos com pouco mais que gestos naturais. O próximo passo - e já estamos mais próximos do que a maioria das pessoas imagina - será ler a intenção diretamente do seu cérebro. (...) Os laboratórios da CTRL são pioneiros em algo totalmente novo na interseção da biologia e do código. Ele fez isso reunindo um quadro raro de cientistas e tecnólogos: PhDs em neurociência computacional; biomecânica combinada com hackers e codificadores; especialistas em processamento de sinais, aprendizado de máquina e interação homem-computador; e designers industriais (Josh Wolfe, “Mind Control”, Medium.com – clique aqui).
Um link desse artigo e do próprio laboratório foi colocado por Erin no site da Tinker Ventures e citações publicadas no seu perfil numa rede social. Thomas Reardon fez fortunas inventando o Internet Explorer em parceria com Bill Gates e Microsoft.
Claramente a fonte de todas as especulações conspiratórias vieram das crípticas palavras ditas por Erin, num aparente surto psicótico: “Matrix”, todos vivemos em um “jogo mental” e “neurociência = controle da mente”.

Thomas Reardon

Universo como uma gigantesca simulação

Tudo faz lembrar de outra “anomalia” discutida por esse Cinegnose: o anúncio do Bank of America em 2016 sobre a probabilidade de estarmos vivendo na Matrix, isto é, de o nosso mundo e o próprio Universo ser uma gigantesca simulação computacional.
De acordo com o Bank of America Merrill Lynch (BAML), uma das maiores instituições financeiras dos EUA, o plot que as irmãs Wachowski criaram para a trilogia Matrix estaria muito próximo da realidade - clique aqui.

Página do relatório do BAML de 2016

Segundo a versão online do Daily Mail (clique aqui) e do Business Insider (clique aqui), nota informativa enviada aos investidores do BAML em seis de setembro daquele ano dizia que haveria entre 20% e 50% de chance de todos nós estarmos vivendo em uma Matrix – o que significaria que todos nós, nossas vidas pessoais e financeiras, estariam imersas em uma simulação.
O BAML chegou a citar as  teses de Elon Musk, Neil deGrassi e do filósofo de Oxford Nick Bostrom – cujas ideias já foram discutidas nesse Cinegnose  clique aqui.
Tad Friend, jornalista da revista New Yorker, afirma: “muitas pessoas no Vale do Silício estão obcecadas com a hipótese da simulação, o argumento que aquilo que experimentamos como realidade é de fato fabricado num computador. Dois bilionários da tecnologia chegaram a secretamente engajar com cientistas para trabalhar em livrar-nos da simulação” – leia “Sam Altman’s Manifest Destiny”, New Yorker.
Para o cientista e engenheiro computacional Jaron Lanier, há uma espécie de “religião das máquinas” no Vale do Silício: acreditam que se atualmente conseguimos simular mundos através de Realidade Virtual, games, Realidade Aumentada, é porque conseguimos estabelecer um nível meta – somos capazes de construir mundos simulados dentro de mundos simulados. Nossa condição seria a de vivermos em mais uma simulação dentro de inúmeras realidades.
Isto é, estaríamos nesse momento desenvolvendo e aprimorando uma habilidade inata ou atávica, como seres que já vivem no interior de uma simulação computacional.

Tudo seria apenas paranoia conspiratória?

Casos como a da misteriosa morte de Erin Valenti e do entusiasmo como cientistas e engenheiros do Vale do Silício abraçam essa cosmologia gnóstica seriam indícios de que algo aconteceu ou está acontecendo: assim como na física quântica a alta resolução do mundo das partículas subatômicas sugere um Universo não mais analógico, mas pixelado e fragmentado (sugerindo o limite da renderização da simulação), da mesma forma no mundo da financeirização a busca de variações de mercado em nano-segundos (onde fortunas podem ser criadas ou destruídas num piscar de olhos) poderiam ter batido na barreira da fronteira da simulação ou da renderização daquilo que entendemos como “realidade”.
“Matrix”, “homens de preto”, “Deep State”, “controle da mente” e todas essas expressões clichês em tom paranoico logicamente nos induzem a liquidar rapidamente um assunto como esse: tudo não passaria de “teoria da conspiração infundada”, “surto psicótico” ou um típico episódio de “burnout” (síndrome de esgotamento físico e mental) de uma CEO de um ramo tecnológico e comercial ultracompetitivo e de pressões desumanas.
Porém, seja um burnout ou surto psicótico são sintomas de alguma coisa real. São expressões clichês sim, alusões à ficção científica hollywoodiana ou de toda literatura e imprensa conspiratória. Mas e se todos esses clichês forem exatamente isso: lugares comuns  para encobrir uma realidade mais estranha que a ficção?