A maioria das pessoas vive física, intelectual ou moralmente, num círculo muito restrito do seu ser potencial. Elas fazem uso de uma parte muito pequena de sua consciência possível.


( William James)


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Sonhos Lúcidos

Florinda Donner é uma discípula de Don Juan Matus, um mestre bruxo do estado de Sonora, México e, por mais de vinte anos, uma companheira minha nesta aprendizagem. Devido a seus talentos naturais, Don Juan e duas de suas companheiras feiticeiras, Florinda Grau e Zuleica Abelar, deram a Florinda Donner uma instrução e cuidados muito especiais. Entre os três a treinaram como “ensonhadora” e a levaram a desenvolver sua “atenção de ensonho” a um grau de controle extraordinário.

De acordo com os ensinamentos de Don Juan Matus, os feiticeiros do antigo México praticavam duas artes: a arte de espreitar e a arte de ensonhar. Praticar uma ou outra arte estava decretado pela atitude inata de cada praticante da feitiçaria.

Ensonhadores eram aqueles que possuíam a habilidade de fixar o que os bruxos chamam de “atenção de ensonhos”, um aspecto especial da consciência, nos elementos dos sonhos normais.

Chamavam espreitadores a aqueles que possuíam uma aptidão inata conhecida como a “atenção de espreita”, outro estado especial da consciência, que permite encontrar os elementos chave de qualquer situação no mundo cotidiano e fixar essa dita atenção neles, a fim de alterá-los ou de ajudá-los a permanecer em seu curso.

Através de seus ensinamentos, Don Juan Matus sempre deixou muito claro que as idéias dos bruxos da antiguidade ainda permanecem em vigência hoje em dia, e que os bruxos modernos sempre se reúnem nesses dois grupos tradicionais. Para tanto, seu esforço como mestre foi inculcar em seus discípulos as idéias e práticas dos bruxos da antiguidade por meio de um rigoroso treinamento e uma disciplina férrea.

A idéia dos bruxos é que, ao fazer com que a atenção de ensonhos se fixe nos elementos dos sonhos normais, estes sonhos se transformam de imediato em ensonhos. Para eles, os ensonhos são estados únicos da consciência; algo como comportas abertas até outros mundos reais, porém alheios à mente racional do homem moderno. Na primeira vez que Don Juan me falou da arte de ensonhar, eu lhe perguntei:

_Você quer dizer, Don Juan, que um feiticeiro toma a seus sonhos como se fossem uma realidade?

_Um feiticeiro não toma nada como se fosse outra coisa – contestou. –Os sonhos são sonhos. Os ensonhos não são algo que se pode tomar como a realidade: os ensonhos são uma realidade a parte.

_Como é tudo isso? Me explique.

_Você tem que entender que um bruxo não é um idiota nem um transtornado mental. Um bruxo não tem nem o tempo nem a disposição para enganar a si mesmo, ou para enganar a ninguém, e menos ainda para dar um passo em falso. O que perderia fazendo isso é demasiado grande. Perderia sua ordem vital, a qual leva uma vida inteira para se aperfeiçoar. Um feiticeiro não vai desperdiçar algo que vale mais que sua vida tomando uma coisa por outra. Os ensonhos são algo real para um bruxo porque neles ele pode atuar deliberadamente; pode escolher dentro de uma variedade de possibilidades àquelas que sejam as mais adequadas para levá-lo aonde ele necessite ir.

_Então você quer dizer que os ensonhos são tão reais como o que estamos fazendo agora?

_Se prefere comparações, lhe direi que os ensonhos são talvez mais reais. Neles a pessoa tem poder para mudar a natureza das coisas, ou para mudar o curso dos eventos. Mas tudo isso não é o importante.

_O que é então o importante, Don Juan?

_O jogo da percepção. Ensonhar ou espreitar significa ampliar o campo do que se pode perceber a um ponto inconcebível para a mente.

Na opinião dos bruxos, todos nós em geral possuímos dons naturais de ensonhadores ou espreitadores, e a muitos de nós nos resulta muito fácil ganhar o controle da atenção de ensonhos ou o da atenção de espreita, e o fazemos de uma maneira tão hábil e natural que na maioria das vezes nem nos damos conta de o haver realizado. Um exemplo disto é a história do treinamento de Florinda Donner, que precisou de anos inteiros de agonizante trabalho, não para ganhar o controle de sua atenção de ensonho, e sim para clarear seus ganhos como ensonhadora e integrá-los ao pensamento linear de nossa civilização.

Certa vez foi perguntado a Florinda Donner qual era a razão pela qual escreveu este livro, e ela respondeu que lhe era indispensável contar suas experiências no processo de enfrentar e desenvolver a atenção de ensonho a fim de tentar, intrigar ou incitar, pelo menos intelectualmente, a aqueles que se interessem em levar a sério as afirmações de Don Juan Matus acerca das ilimitadas possibilidades da percepção. Don Juan acreditava que no mundo inteiro não existe, nem talvez já tenha existido, outro sistema, exceto o dos bruxos do antigo México, que conceda à percepção seu merecido valor pragmático.

CARLOS CASTANEDA

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